segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Ela

Que bonita que ela está!

Alguém a chama e ela olha para trás. Sacode o cabelo com aquele seu jeito meio desleixado, todo senhor de si. Reflete o seu brilho nas montras carregadas de detalhes natalícios, quentes e apelativos, que faz frio lá fora e o cartão de crédito apela para ser usado. Só uma, só mais uma vez. Bota da moda, vestido colorido, que o Inverno já está cheio de negridão e ela sente-se melhor assim, a mala combina com as unhas e os lábios com os meus. Eu olho-a, com o brilho de quem a viu por dentro e nunca foi visto por fora. Desce a rua sozinha, falando vivamente ao telemóvel, risonha e resplandecente, levando nas mãos o vazio que eu quero preencher, num encaixe perfeito, tenho a certeza.

Observo-a há meses como se de anos se tratasse. Com olhos de quem vê realmente. “É de cá mas estudou fora, gente fina, que sabe línguas e já correu o mundo! Uma boa menina, de boas famílias!”. Ouço os clientes, encantados.
Ah, se eu fosse como ela… Tão livre, tão alegre, tão eu. Tão tudo que eu nem sei explicar, que se me esvoaçam borboletas pelo peito até ao estômago, do estômago ao coração, numa corrida desenfreada para ver quem chega primeiro àquela flor.

A alegria destes dias farinhentos, de volta dos pastéis variados e do pão de centeio, começa às 14 horas quando ela chega. Um abatanado e um pastel de Belém. Com canela. Usa meia saqueta de açúcar, mexe 3 vezes o preparado, recolhe o cabelo dourado pelo ombro direito e quando o faz encolhe o nariz, as sardas enunciando uma alegria distraída, tanta gente a envolve-la. Não há um dia que não esboce um sorriso. Uns dias mais feliz, outros mais pensativa, mas eu já sei que ela é assim.
Assim-assim, assim sim.

Até hoje contei seis. Seis maneiras soberbas de sorrir. Não gosto de contar as 3 formas de chorar, que me dói, dói-me como se fosse em mim, mas que a garantem linda, pura, única.

Se tivesse a oportunidade de ser como ela, de poder tê-la! Pudesse eu dizer-lhe como fica linda mesmo com aquelas migalhas presas ao cantinho de boca, que sempre se esquece de limpar. Suspirar-lhe que a minha vontade mais absoluta é que olhe um segundo para mim, só um segundo, com o mesmo brilho verde água maroto, expressado no calor do seu olhar, cada vez que vê uma criança. Quisesse eu dar-lhe o meu ombro nos dias do sorriso quatro, quando o queixo treme e prefere a mesa do canto, só, coloca a face na mão esquerda, suspirando a cada 2 minutos, a perna a mover-se numa dança triste. Tivesse eu vida para lhe contar todas as histórias que escrevi sobre ela e os bolos que ela me faz criar, inspiração. As horas passadas em branco, coloridas do seu perfil pertinho do meu, beijos loucos que me alimentam de imaginação a mais. Pudesse eu tê-la…

Mas eu sou… Isto. Um mero padeiro, um simplório, que nem nome tenho para Ela. Que poderia eu dar-lhe? Doces? Esboços daquilo que nunca fui? Uma vida de apartamento alugado, com três gatos, dois cães e pingas constantes no lavatório? Ela espera um príncipe, nunca um sapo. E eu… Sou tudo o que ela tem, nos seus piores pesadelos.

Como pode o rapazote da povoação algum dia sonhar em ficar com a princesa do reino? Nem com mil fadas madrinhas, dúzias de burros do Shrek e cargas de ratinhos, não. E eu, de uma vez por todas, tenho de parar de sonhar, de almejar actos impossíveis. Que a paz no mundo nunca vai acontecer, o mundo nunca será justo e social, o buraco onde caiu Alice não existe, por mais que eu tente procura-lo. É isso. Sou só eu e a minha parvoíce, Thomas More e a sua Utopia.

Ela é mais e melhor. Mais do que algum dia serei, melhor do que algum dia poderei ter.

E por mais que as 14 sejam as horas preferidas de todo o meu dia, porque vou vê-la entrar por aquela porta com o seu jeito de menina, coração de pequena e atitude de mulher, linda, sedutora, meiga e… Esquece. As malditas 14 horas são também as piores, quando o meu coração bate tão forte que me aquecem as lágrimas e tenta, em desespero, adir braços para a segurar e dizer-lhe, forte e seguramente: Tu és a mulher da minha vida.


Agora acorda, coração. Volta aos dias farinhentos que de doçura têm só os bolos. Um dia encontrarás alguém que esteja á altura da tua vontade e das tuas possibilidades. Um dia. 


Sem comentários:

Enviar um comentário